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Querido leitor,
A vida, a mídia, os amigos, o cunhado concorrente... todos nos ensinam que, para se dar bem na vida, para ser bom na vida, é preciso ter um belo automóvel.
O automóvel penetrou nossas cidades, tragando-as em ruas e avenidas cada vez mais largas, perigosas. Avenidas que abrigam carros velozes quando somos pedestres, congestionamentos quando somos motoristas ou passageiros. Como os cidadãos de bem são apenas aqueles com seu próprio automóvel, mofamos nos congestionamentos e atropelamos os seres suspeitos.
Não quero, porém, prezado leitor, rivalizar com outros grandes cronistas e sábios nesta crítica ao mundo do automóvel. Não sou o Paulo Mendes Campos, elencando a enorme série dos beneficiados com a aquisição de um automóvel (série que não inclui o proprietário!). Não sou o libertário Ivan Ilich demonizando a modernidade insalubre, denunciando o redesenhar das urbes em favor dos veículos (que se danem os seres humanos!). Não sou nenhum deles, não faço as mesmas críticas, sejam irônicas, sejam iradas. Mas gostaria de ser e gostaria de fazer, caso pudesse.
Por ora, o máximo que ouso é tentar ornamentar com disfarçado moralismo, sutil lição de vida típica das boas crônicas, o causo da dona Berenice.
Berenice lutou bravamente por sua carteira de motorista. Ela foi reprovada em dez exames! Sério, dez exames. Seu corpo tremia, sua mente sumia... Terríveis circuitos, fazendo suar frio os examinadores. Passou na baliza só na quarta tentativa. Na faixa, lá pela sexta ou sétima. Numa bela manhã, em sua décima tentativa de ser aprovada no circuito, pegou o examinador feliz da vida por ter passado a noite com a amante, de cabeça ainda cheia de bom vinho. O examinador tirou um cochilo e, quando deu por conta, viu-se completo o roteiro.
Só restava aprovar a dona teimosa. Mas acho que ele a aprovaria mesmo se tivesse prestado alguma atenção. Estava muito feliz.
Por que, dona Berenice, quis tanto tirar esta carteira? Pra que tanto esforço, tremedeira, desvario, pavor? Tanto tempo consumido e dinheiro gasto?
Sim! Para a glória de dirigir seu próprio automóvel.
Ela ingressara no tempo lento dos congestionamentos, no humor irascível dos carros apressados, atrasados e irresponsáveis, no espaço apertado entre um carro e outro, no instante infecundo de um abrir e fechar de semáforo.
Primeiro passeio de carro. “Não, eu vou sozinha”, disse ela ao assustado esposo. E foi mesmo, bem pro centro da cidade, com aquele trânsito terrível, motoqueiros nervosos, carros buzinando e pedestres distraídos. Sem falar na dificuldade de achar uma vaga para estacionar.
Mas estava com sorte! Parecia que todos os motoristas, naquele dia, tinham dormido com a amante e se entupido de vinho na noite de véspera. E nem precisou fazer a hedionda balisa para estacionar seu carro. Havia uma vaga bem na esquina. Foi só dar uma rezinha, sendo que o carro de trás teve sorte de não ter o farol esmagado.
A dona pagou contas, comprou brincos, uma ou outra roupa. Estranhamente, para um observador externo, não se entupiu de pacotes, o que seria esperado de uma dama com alguma grana e um carro transporte só pra ela.
A força do hábito era a culpada. Não é que Berenice desceu com seus poucos pacotes em direção ao terminal urbano e, para o horror de qualquer outro motorista iniciado e proprietário de um veículo ... tomou um ônibus? Entrou pela porta da frente, pagou com trocado e tudo, achou lugar para sentar e ficou admirando com o mesmo tédio freqüente a mesma paisagem de sempre.
Quando o ônibus atravessava a ponte que ligava as duas partes da cidade, no meio de seu caminho, sentiu uma coisa apertando no bolso da calça. “O que será isto?”, pensou. Antes mesmo de puxar, já sabia a resposta: “Que coisa! A chave do carro!”
Lembrou-se, enfim, que tinha ido de automóvel para o centro.
Mas logo na primeira viagem!
Será que ela precisava mesmo do seu carro? Precisamos mesmo? |